só para avisar que…
…o dia do meu aniversário foi o primeiro dia frio do ano em Porto Alegre.
…o dia do meu aniversário foi o primeiro dia frio do ano em Porto Alegre.
…hoje a síndica do meu prédio me interfonou (esse verbo existe em outras famílias?) para avisar que ia faltar água e eu disse que isso era uma merda, pois eu ainda não tinha tomado banho e tinha que fazer algumas coisas antes disso, e ela então reclamou que eu reclamo demais da minha vida, que ela é boa demais, que eu tenho casa, comida e roupa lavada. Argumentei que eu não reclamo da minha vida, que eu a acho boa demais, que eu agradeço por ter casa, comida e roupa lavada e que eu reclamo exclusivamente dos outros, ou das coisas criadas pelos outros, ou de não ter água para tomar banho. Ela disse que acha que eu deveria deixar de ser tão arrogante, de achar que eu não erro ou que os erros dos outros não devem ser perdoados. Respondi que eu perdôo erros até certo ponto, e que eu não sou de maneira alguma arrogante, muito pelo contrário; respeito todo mundo e considero todo mundo igual, mesmo aqueles que eu sei que a recíproca não é verdadeira. Respondi que a gota d’água cai todos os dias, mas o balde não transborda nunca, porque eu esqueço muito fácil das coisas. Sugeriu que eu comprasse um caderninho. "Já comprei, mas sempre esqueço de anotar". E hoje pela manhã eu saí de casa e havia fila para o show do RBD, eu disse para ele que eu não entendia como as pessoas levam isso a sério, ela disse que a filha dela gosta bastante de RBD, e eu disse que não tenho nada contra. Eu comecei a achar que a conversa entre o filho de morador e a síndica estava começando a ficar estranhamente comprida demais, e resolvi acabar com o papo, citando Sartre: "O inferno são os outros" (as pessoas tendem a se estressar com comentários forçosamente intelecutalóides). Ela disse então que me entende, pois na semana passada quando o zelador veio perguntar como se operava o mecanismo da caldeira ela teve que explicar umas cinqüenta e oito vezes, mas nem por isso ela fica reclamando o tempo inteiro. Eu disse que ela não entendia não, que ela já era velha demais para lembrar como era ter quase 19 anos, e não querer ter 19 anos. Ela se ofendeu e disse: "eu posso não saber o que é ter quase 19, mas eu sei o que é ter quase 89 anos, e é muito pior".
"Pior? Você não tem professores".
O negócio, meu caro, é que nem todas as drogas são uma droga (minha síndica sempre é uma droga). E o fato é que os vencedores usam drogas sim. Não que eu seja um vencedor.
De qualquer maneira, amanhã completo um ano de vício direto em uma droga muito boa. Uma droga que me deixa bobo mas me faz pensar. Uma droga que me dá alucinações demasiado reais. Uma droga que me dá sono mas é um sono pacífico. Uma droga que me liga, mas me pára na hora certa. Uma droga que não precisa de companheiros, pois ela se droga comigo.
Ah. nunca pensei que um dia eu estaria plenamente feliz em ser um junkie assumido.
Choose life.
Preciso terminar de ler os livros que eu comecei a ler.
Uma lista que inclui Dostoievski, Nietzsche, Comte-Sponville, Jonathan Swift, Joyce e Kafka.
O que tem me feito me afastar das coisas que começo a ler?
Culpa da internet, de certo. A maldição de só-conseguir-ler-sozinho-na-praia.
Como vou crescer como pessoa desse jeito?
Preciso voltar a tocar violão. Preciso pegar meu baixo mais vezes. Preciso escrever sobre os filmes que vejo, sobre os discos que ouço. Preciso ter idéias. Preciso criar personagens. Preciso escrever roteiros. Preciso criar. Preciso tirar fotos e compor músicas. Preciso fazer amigos e preciso que meus amigos leiam o que eu escrevo.
Alguma idéia para estimular a criatividade e a vontade de ler?
Eu sou uma farsa, de certo. Jamais serei aqueles caras que criam frases realmente bacanas que marcam a história.
(ou de três formas de vida: pequena, média e grande)
A síndica do meu prédio nunca produziu nada. Fora aquele cocozinho bonitinho que ela faz todo início de tarde, ela nunca fez nada útil. Tudo o que ela faz é encarar-nos com aquele olhar de eu-sou-melhor-que-você, não resolver o problema do aquecimento da água todo santo inverno e escrever recados ignorantes. No entanto, ela vive e respira no alto de seus 84 anos (um pouco menos, na verdade; mas como o blog é meu eu posso aumentar um pouco).
Nas últimas três semanas, conformei-me com a idéia de que dentro de nove meses conheceria um novo membro da família: um quarto sobrinho (queria muito que fosse uma menina). Nos últimos três dias, tento me conformar com a idéia de que esse novo membro não é mais esperado. Ele não viveu, ele não pensou, ele não criou. Mas poderia ter vivido, pensado, criado, me feito rir, me feito chorar. Não; ele não me deu nada. Não deu nada ao mundo, não teve sua chance. Simplesmente deixou de vir. Mudou de idéia. Talvez não tenha gostado da situação da família, mas isso é outra história para outro dia.
Sábado, um cara bacana e muito inteligente, que eu gostaria de ter conhecido melhor foi-se embora nos seus poucos 20 anos de vida. Ele era um grande amigo de um grande amigo meu. Pelo jeito, ele sabia aproveitar a sua vida e dava valor a sua família. Ele simplesmente foi atingido pelo azar. Esse era um cara promissor. Esse cara devia ser meu amigo. Esse cara ainda ia produzir muita coisa e alegrar muita gente. Esse era um cara que, do alto dos seus 84 anos, mereceria olhar para os outros com o olhar de "eu-sou-melhor-que-vocês".
E aí, quem são a pequena, a média e a grande? E qual vocês vão querer ser?
P.S.: Minha síndica detestou o novo do Wilco (Sky Blue Sky, ouçam no site), até veio aqui reclamar. Eu achei, com o perdão da palavra, lindo.
A síndica do meu prédio deixou um aviso no elevador hoje;
algo sobre segurança, cuidados a serem tomados, pauta da próxima reunião de condomínio. Importante e tal.
Mas ela escreveu tudo errado. Não se resumia apenas ao famoso "Por quê?" sem acento (o qual eu consertei, pois coincidentemente eu estava com uma caneta na mão enquanto subia o elevador). Havia frases inteiras sem nexo algum. Uma delas era algo do tipo "precauções são não são tomadas". Provavelmente faltava um "ou" ali no meio, mas igual não faz muito sentido. Mas OK. A lingüística diz que devemos aceitar essas coisas. Mas ela sempre faz essas coisas. Só eu me importo com isso?
a síndica do meu prédio… (este blog, não a dita cuja) é mais ou menos para isso. Um espaço para chamar a atenção de todo o lixo do mundo (coisas que provavelmente só são o lixo do mundo para mim) que, inevitavelmente e de alguma forma, personifica-se na figura dessa mulher desprezível e mal-amada.
Bem-vindos.